20151002-festival-do-rio-2015-papo-de-cinema

Em alguma ordem de preferência e com notas:

No andar debaixo – 9
“terror” urbano do homem médio confrontado com sua indiferença, machismo e corrupção como servidor público. a tensão restrita aos relacionamentos de “terça, depois do natal” atinge agora o vizinho ao lado, com mesma precisão dramática e administração total dos tempos narrativos. muito foda!

A rua da amargura – 9
não apenas por ter ressuscitado como poucos a alma marginal de luis buñuel, arturo ripstein realiza um baile único sobre um méxico sombrio e vivo, decadente e criativo, perigoso e cômico. obra-prima!

Os Panteras Negras: Vanguarda da revolução – 8,5
mais um documentário fabuloso de stanley nelson, em sua saga de narrar a história de luta do negro norteamericano editando perfeitamente uma base de arquivo ampla e complexa.

Meu amigo Totoro (revisto) – 8,5
já estava me esquecendo do quanto esse filme é delicioso. mentira. não estava não.

A obra do século – 8
rotina familiar desencantada & pitoresca de uma isolada cuba após o fim da urss. registros de uma época de esperança que pagou preço alto na expectativa do progresso. o fantasmagórico e bicolor dos bairros-espectros [o cubano “branco sai, preto fica”]

Montanha da liberdade – 8
não tem jeito. não consigo lembrar outro cineasta recente com melhor aproveitamento (em quantidade e qualidade). um humor generoso em tempos cínicos, uma retomada do prazer de contar histórias – e, ao mesmo tempo, dar a impressão que tudo isso é muito simples.

Dope – 8
reverente à cultura pop, sem se prender aos estereótipos. loops narrativos, quase que em ritmo próprio do rap, que atingem o ápice no surrealismo moderno na explosão de memes e posts enquanto o tráfico corre solto em bitcoins pela deep web e a banda pop punk conquista mais seguidores. sim, nesse ritmo.

Camelo celestial – 8
uma linda fábula que spielberg tem tentado voltar a fazer, mas parece ter esquecido. roteiro humanista e esquemático enfeitado pelas belezas da rússia/mongólia e pela potência dos personagens infantis dentro de um ambiente hostil.

Campo Grande – 8
o “mutum” urbano, o “central do brasil” menos esquemático. domínio pleno do(s) tempo(s) dramático(s) e fabricador de genuínas tensões sociais e contenções/explosões emocionais.

Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois – 8
bressaniano mergulho nas dores mais profundas de uma mulher casada carregada de ressentimentos e frustrações.

Bombay Velvet – 7,5
a ambição contra todos. tour de force do crime digno de um tarantino ou scorsese (não a toa a edição é da thelma schoonmaker), com ótimo domínio de ritmo, belíssimos cenários e trilha pop indiana.

Mia madre – 7,5
nanni moretti realiza um melodrama clássico de forte carga emocional, combinado a um contexto contemporâneo e intertextual com o próprio cinema, ao colocar uma diretora no núcleo dramático.

Lucifer – 7,5
forte alegoria religiosa, de fotografia atmosférica e estilística (como que vista por uma luneta) e um luminoso uso da sonoplastia que expande sentidos.

Rabo de peixe – 7,5
dispositivo parecido com de “e agora? lembra-me”: reflexões (internas sobre o próprio filme; de temas filosóficos; e de referências externas) por cima de uma coleção de imagens muito bem montadas.

Right now, wrong then – 7,5
o mestre mantém o trabalho com a repetição, mas neste o dispositivo está ainda mais evidente em sua junção melodrama/comédia de costumes.

Boi Neon – 7,5
mais um cinema de fluxos e corpos soltos desregrados de um encadeamento narrativo linear dialogando o tradicional com o novo. exibicionista e pulsante.

Speed Sisters – 7
a livre velocidade dos carros embarreirada pelos muros da palestina ocupada e do preconceito de gênero.

Aspirantes – 7
cenas dilatadas que constroem um bom painel dramático de jovens furiosos e sensuais. e saquarema ficou bonitona no telão =]

Stand by your tape back-up – 7
retrato intimista em narração off em cima de retalhos gravados no vhs. a memória televisiva como motor e reorganizador do pensamento.

Escritório – 7
johnnie to é um grande maestro visual e exibidor cirúrgico das engrenagens de instituições. embarquei oscilantemente, com alguns picos fortes de empolgação, nesta louca viagem musical.

Tarântula (curta) – 7
os mistérios e temores de ser criança.

A filha da Índia – 7
filme denúncia chocante pela exposição crua do caso do estupro, que entre tantos, comoveu a índia recentemente, colocando em evidência e debate como o machismo ainda é tão enraizado.

A academia das musas – 7
se “na cidade da sylvia” era uma ode às musas, sem utilizar quase nada de palavras, guerín agora expõe longos discursos para saudá-las. passeio intelectual sobre estética, filosofia antiga e conflito de gêneros que pessoalmente oferece menos do que prometia.

Bela e perdida – 7
ode poética à libertação animal belamente fotografado e com mistérios de altos e baixos interesses.

Levante! – 7
bom painel sobre a importância da internet e redes sociais nas manifestações de rua e suas diferentes motivações no brasil, méxico, gaza e hong kong.

Degrade – 6,5
a situação limite da guerra na palestina obriga mulheres ficarem confinadas e aguentarem suas diferenças. combinação de humor/drama interessante mas pouco substancial.

As fábulas negras – 6,5
fazer cinema de terror no brasil atual como um ato de resistência. criativo e jocoso filme de episódios narrados por crianças espirituosas.

Tangerina – 6
uma los angeles transsexual. ora cômica, ora frívola, jornada circular que atinge o pico de uma embriaguez melancólica.

A tarde – 6
uma conversa de tsai com seu ator-fetiche. exclusivo para os adoradores de seu cinema, vide o tom auto-referente em excesso em mais de duas horas de trololó. fora isso é interessante tsai, verborrágico como nunca, insistir em quebrar a indiferença e distância de lee kang-sheng com esse projeto. um casal fraternal ou uma relação patrão-empregado?

Istambul: Crônica de uma revolta – 6
acompanha os desdobramentos das manifestações de 2013 da turquia. inteligente ao assumir as contradições do movimento e honesto em mostrar total ojeriza ao governo local. talvez, no entanto, seu campo de visão seja um tanto quanto limitado.

Eu, você e a garota que vai morrer – 6
escola sundance: ritmo dinâmico, texto inteligente carregado de referências e tom paternalista. estética “pequena miss sunshine” encontra o tema de “a culpa é das estrelas”. confesso estar um pouco cansado. rs

O outro lado – 6
como “tangerina”, um retrato da américa marginal, exibindo o vigor (violência, sexo e drogas) dos sujeitos vulneráveis sem ignorar suas sensibilidades; trazendo um tratamento marginal se apoiando em um modelo acadêmico de cinema contemporâneo; denunciando, mas também não se comprometendo. nem sempre é satisfatório ao tentar conciliar esses pólos.

Copycat (curta) – 6
seria o pânico de wes craven um plágio? curta com interessante reflexão sobre a indústria do cinema vs. a cena independente.

Ned Rifle – 5,5
o estilo seco e satírico do hartley desprovido de sua antiga densidade dramática e força pop. ainda tem lá seu charme.

Os irmãos lobo – 5,5
a estética que mescla video-clipe com reality show sentimentaloide cobra que relevemos alguns pontos jogados e esquecidos, como ao meu ver o fundamental: a questão do relacionamento dos pais ser interracial. no mais, bons personagens!

Pecados antigos, longas sombras – 5
thriller espanhol convencional e burocrático, apesar de uma deslumbrante fotografia e edição de som.

A colina escarlate – 4
é de admirar a escolha de retornar a um terror gótico e romântico, como os da hammer, mas faltou apurar mais este roteiro e o del toro já filmou com mais vigor em trabalhos prévios.

Apanhadora de sonhos – 3
material barra-pesada que tenta dar conta de tudo, mas acaba oferecendo uma acompanhamento rasteiro do destino de seus personagens e pouca coragem em buscar as ‘verdadeiras’ respostas e culpados, ou mesmo de apresentar um mínimo de soluções concretas.

Hilda – 1
não funciona como uma sátira, pois não deixa de ficar agarrado em um formato realista; não funciona como reflexão da luta de classes, pois seu tratamento é absolutamente ralo; não funciona como adaptação atual de um texto antigo, pois tem situações anacrônicas e risíveis; não funciona como um filme de bom elenco, pois os atores tem que carregar marionetes ao invés de personagens. um filme completamente falido e ofensivo.

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