Destaques nas mostras documentais: É Tudo Verdade, Punto de Vista, CPH:DOX, Cinema du Réel, Visions du Réel e FIDMarseille

A primeira metade do ano é marcada por diversos festivais de cinema documentário pelo mundo. Sem mais delongas, vamos ao que interessa, aos seus filmes:

É Tudo Verdade

No Brasil, tivemos em abril o É Tudo Verdade em sua 22ª edição, consagrando na mostra nacional o filme “Cidades Fantasmas“, de Tyrell Spencer, que já estreou recentemente nos cinemas brasileiros. O longa trata sobre quatro cidades abandonadas por seus habitantes. “Uma suíte meditativa e um tanto lúgubre sobre infortúnios, negligência governamental e feridas da América Latina” (em crítica de Carlos Alberto Mattos). A escolha foi feita pelo júri formado pelo o cineasta Joel Zito Araújo, a produtora Daniela Capelato e o diretor de fotografia Jacques Cheuiche.

Já o prêmio da crítica, o ABRACCINE, composto por Cesar Zamberlan, Camila Vieira e Cássio Starling Carlos foi para a história do branco criado por índios, “A Terceira Margem“, de Fabian Remy, “por permitir as incertezas de seu personagem, deixando suas descobertas esboçarem a narrativa, num processo em acordo com a questão central do filme”.

Também foram exibidos “Mexeu com uma, Mexeu com Todas“, cartaz feminista contra o a violência à mulher de Sandra Werneck; “Um Mundo Interiores“, sobre o autismo; “Quem é Primavera das Neves“, sobre a vida desta tradutora e poeta, co-dirigido por Jorge Furtado; “Tudo é Irrelevante“, sobre o advogado e sociólogo Hélio Jaguaribe; e “Maria – Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos“, sobre a artista plástica Maria Martins.

Já a mostra internacional, o júri composto pelo cineastas Alexandre O. Philippe e Anne Georget e a produtora chilena Jennifer Walton escolheu “Comunhão“, de Anna Zamecka, sobre uma menina polonesa de 14 anos tendo que lidar com sua família desfuncional, em observação distanciada com um quê de voyerismo de acordo com crítica de Carlos Alberto Mattos.

O Show da Guerra“, de Andreas Dalsgaard e Obaidah Zytoon ficou com a menção honrosa ao tratar dos primeiros registros da Primavera Árabe na Síria em 2011 que culminou em uma guerra civil sangrenta que perdura até hoje.

De maior destaque também competiam “Paris é uma Festa – Um Filme em 18 Ondas” do elogiado Sylvain George, sobre as recentes manifestações de rua dos jovens estrangeiros na França; o americano “Abacus: Pequeno o Bastante para Condenar“, de Steve James, diretor do premiado “Basquete Blues” (1994), no contexto da crise financeira de 2008; “Luz Obscura” sobre a Polícia Política Portuguesa da ditadura de Salazar; e “Uma Vida Alemã“, sobre uma funcionária do regime nazista que nega qualquer sentimento de culpa pela participação.

Também competiam “No Tempo que Chegará”, no contexto do cinquentenário de independência de Singapura; “A Prisão em 12 Paisagens“, sobre o encarceramento em massa dos EUA, temas já trabalhado no renomado “13ª Emenda”; “No Exílio“, sobre a fuga de uma família da Guerra Civil Espanhola para o México em 1939; “Perón, Meu Pai e Eu“, filme ensaio tendo como base uma entrevista com o ex-presidente argentino; “Relações Próximas“, com depoimentos sobre a crise política da Ucrânia iniciada em 2013; além de “The Workers Cup” que já falamos aqui quando passou em Sundance.

Paralelamente, a mostra latino-americana consagrou o chileno “Los Niños“, de Maite Alberdi, sobre grupo de amigos na faixa dos 50 anos com síndrome de Down; e deu uma menção honrosa para o colombiano “Atentamente“, de Camila Rodríguez Triana, sobre o romance de dois idosos em uma casa de repouso.

Completavam esta competição, “O Esquecimento (Im)possível” da vida de um jornalista e militante no Brasil na época da Ditadura por seu filho argentino; e “Ruínas Seu Reino“, sobre os pescadores do Golfo do México.

Já os curtas vencedores foram “Boca de Fogo” (nacional); “O Cuidador” (internacional); e “Se Você Contar” (Prêmio Canal Brasil) e as menção honrosas para “Festejo Muito Pessoal” (nacional e vencedor do ABRACCINE) e “Polonesa” (internacional).

Fora de competição, foram exibidos filmes que já passaram em outros festivais como “78/52“, “City of Ghosts”, “Ghost Hunting”, “No Intenso Agora”, além do elogiadíssimo e acredito que até então inédito no Brasil, “Dawson City: Tempo Congelado“, do americano Bill Morrison. Também foram exibidos “Eu, Meu Pai e Os Cariocas“, biografia do grupo de bossa nova Os Cariocas; “A Batalha de Florange”, sobre a resistência de trabalhadores na França frente o fechamento da usina em que trabalhavam; “Permanecer Vivo“, com Iggy Pop declamando Michel Houellebecq em seus momentos de distúrbios psiquiátricos; “Offshore – Elmer e o Sigilo Bancário Suíço” sobre a abertura de dados sobre clientes em contas em ilhas fiscais; e “Todos os Governos Mentem“, canadense sobre o jornalismo investigativo em tempos de pós-verdade.

Ainda, nas mostras retrospectivas, foram exibidos filmes do cineasta anti-ditadura Sergio Muniz e sobre 100 anos da Revolução Russa foram os temas.

Punto de Vista

O festival de Navarra, comunidade autônoma da Espanha, sempre traz experiências arriscadas e experimentais no formato documental. Este ano, o vencedor foi o representante do Reino Unido “The Host“, de Miranda Pennell, “por su capacidad de trazar un viaje cinematográfico del ámbito personal al político, indagando en una historia colonial cuyas consecuencias siguen vigentes hoy día”. O filme investiga as atividades de uma companhia de petróleo britânica no Irã. Em crítica extremamente positiva, Manu Yáñez diz que “La monocromía otorga al conjunto de las imágenes una fuerte cohesión plástica, algo que refuerza el parecido extremo que Pennell encuentra entre algunas fotografías antiguas y algunos dibujos fotorrealistas, lo que pone sobre la mesa la fragilidad de lo que conocemos como “Historia” y “realidad””.

O prêmio de melhor diretor foi para Eric Pauwels, pelo belga “La deuxieme nuit“, “por su capacidad de poner en relación la memoria, las palabras y las imágenes del cine como propuesta de libertad poética”, em uma espécie de carta de despedida para a mãe do diretor após seu falecimento. Já entre os curtas, o vencedor foi para “Foyer“, da Tunísia, de Ismaïl Bahri, “por que es elegante en su sencillez y economía de recursos, su minimalismo hace un guiño a cuestiones geopolíticas de mayor envergadura”.

A escolhas foram feitas pelo júri formado por Alain Fleischer, Vivi Tellas, Aleksandr Balagura, Toby Lee e Daniele Dottorini. Já o público premiou o espanhol “Converso“, de David Arratibel, sobre as reflexões sobre ser fiel ao catolicismo.

Ao redor da programação é de se destacar os longas: “We Make Couples“, colagem de imagens e vozes em off feministas; “The Challenge“, sobre as contradições da riqueza no emergente Qatar; e “Treblinka“, sobre o terror dos trens que carregavam judeus no regime nazista. Dentre os curtas: “Green Screen Gringo“, sobre visão de um holandês em meio à crise política brasileira e o impeachment de Dilma; o português “Cidade Pequena” que acompanha os pensamentos existenciais de uma criança; e “From Vincent´s House in the Borinage“, tomando como base uma carta de Van Gogh para o irmão.

Ainda na mostra “Cazador Cazado” foram exibidos docs sobre a obra dos mestres Chris Marker, Raoul Ruiz, Manoel de Oliveira, Abbas Kiarostami e Jean-Luc Godard.

CPH:DOX

Em júri que continha Joshua Oppenheimer (de “O Ato de Matar”), o tradicional festival dinamarquês premiou na mostra principal DOX:AWARD, o “The Last Men in Aleppo“, de Feras Fayyad, sobre a guerra na Síria, que já comentamos aqui quando estreou em Sundance. Enquanto as menções honrosas foram para o americano “Gray House” de Austin Lynch e Matthew Booth “for its astonishing use of cinematic language to create a profound sense of human isolation”; e para o dinamarquês “The John Dalli Mystery“, de Mads Brügger e Mikael Bertelsen “for its combination of gripping investigation with audacious, absurd, and despairing film noir”.

Dentre os outros filmes que competiam, reside interesse no dispositivo inovador no trato com o tema dos refugiados em “Stranger in Paradise“; o outro registro da Síria no olhar de um menino em “Obscure“; o gracejo em cima dos comerciais de energéticos no norueguês “DRIP“; as reflexões biopolíticas do australiano “The Third Option“; além de “City of Ghosts” que também competiu em Sundance e agora venceu o prêmio do público.

Eduardo Williams teve seu elogiado filme “O Auge do Humano” exibido fora de competição, enquanto ainda participou do júri do NEW:VISION AWARD, que valoriza obras mais ligadas à video arte. O vencedor dessa edição foi “Life Imitation” do chinês Zhou Chen, ” profundamente poético, hermoso incluso en su oscuridad” diz crítico Gonzalo Hernandez Espinosa que no artigo também detona o “Last Men in Aleppo”. A menção honrosa foi para “The Lost Dreams of Naoki Hayakawa“, sobre um diretor de arte japonês que trabalha 16 horas por dia e mistura seus sonhos com seu trabalho.

Na mostra de filmes mais jornalísticos, o F:ACT AWARD foi para o holandês “Radio Kobanï“, de Reber Dosky, sobre uma repórter de guerra na Síria; enquanto o americano “Trophy”de Shaul Schwarz e Christina Clusiau, sobre a cultura de caça aos animais ficou com a menção honrosa.

Já o NORDIC:DOX Award, mostra exclusiva de filmes nórdicos, o vencedor foi “Land of the Free” de Camilla Magid, sobre uma periferia de Los Angeles, que segundo o júri “achieves an incredible intimacy with its protagonists and stays true to its cinematic choices.” A menção honrosa foi para “69 Minutes of 86 Days” de Egil Håskjold Larsen, o registro de uma família imigrante.

Ao redor de todo o Festival reside interesse para os seguintes filmes: “Ambulance” sobre o conflito na Palestina; o olhar branco sobre a escravidão nos EUA, em “Purge This Land“; o filme sobre os cinemas itinerantes da Índia, “The Cinema Travellers“; “Brexitannia“, primeiro filme sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Muito interessante também a curadoria que o músico Anohni fez para o festival.

Cinema du Réel

Filme que também passou em Berlim, “Mama Colonel“, sobre a violência sexual com as mulheres no Congo, foi o grande vencedor do festival francês. O segundo prêmio, dado pela associação de documentaristas Scam, foi dado para “No Intenso Agora”, do nosso João Moreira Salles, que também venceu o prêmio da Biblioteca e de melhor trilha sonora para Rodrigo Leão.

Competiam também outros filmes que já passaram por outros festivais como “Martírio”, “Ghost Hunting”, “Luz Obscura”, “Ejercicios de Memoria”, “Paris é uma Festa” e “We The Workers”. De novidade, o filme ensaio americano “A Strange New Beauty“, o cinema direto chinês de “A Yangtze Landscape“; e o conflito Israel x Palestina em “Postcards from the Verge“.

Na mostra francesa, a vitória recaiu para “Last Days in Shibati“, de Hendrick Dusollier, um retrato de um subúrbio na China, que também venceu o prêmio do júri jovem. Já as menções especiais recairam por parte do júri oficial para “Every Wall is a Door” e suas reflexões da Búlgaria pós-comunista e o júri jovem lembrou de “I Remember Nothing“, sobre um jovem bipolar no contexto da revolução da Tunisia em 2011. Recai curiosidade também para o novo filme do ótimo Nicolas Klotz, “Hamlet in Palestine“.

Na mostra paralela de diretores estreantes, o prêmio máximo Joris Ivens foi para “On the Edge of Life“, de Yaser Kassab, outro retrato sobre a guerra na Síria, com o uso de Skype para o contato.

O festival ainda fez uma homenagem a Andrea Tonacci, exibindo todos seus filmes.

Visions du Réel

Outro registro da guerra na Síria saiu vencedor do festival suíço. “Taste of Cement” trata de trabalhadores sírios em Beirute, acompanhando a guerra de longe e sem direitos de ir e vir no Líbano. “Talal Khoury’s camera rests on silent, motionless, introverted, exhausted and hopeless faces of its subjects.” (diz crítica de Dieter Wieczorek). Já o prêmio RÉGIONYON de filme mais inventivo, foi para o italiano “Upwelling“, de Silvia Jop e Pietro Pasquetti, um filme ensaio com reflexões políticas (crítica positiva aqui).

De destaque ainda competiam “I Pay For Your Story“, que leva o título ao pé da letra ao receber depoimentos de moradores de um subúrbio em Nova York; “A Campaign of Their Own” sobre a campanha de Bernie Sanders para presidência dos EUA; o olhar sobre a Singapura prestes a comemorar sua independência em “In Time To Come“; o brasileiro “Navios de Terra” com reflexões sobre a imigração em tempos globalizados; as consequências da guerra entre Armenia e Azerbaijão em “Les éternels“; e mais um registro da Síria, “No Place for Tears“.

O prêmio de melhor filmes suíço foi para “Retour au Palais” de Yamina Zoutat, “the former TF1 journalist takes possession of the Palace of Justice, making it her own, subjectively re-transcribing the story and retranscribing it (em crítica de Muriel Del Don). “Kawasaki Keirin” levou o prêmio inovador e “Rue Mayskaya” ficou com menção honrosa.

Entre os médias metragens, a vitória recaiu para Burkina Faso em “Vivre riche” de Joël Akafou; o média inovador foi o italiano “Yvonnes” de Tommaso Perfetti, enquanto a menção honrosa foi para o retrato do Camboja “Miss Rain” de Charlie Petersmann.

Ao longo da programação é de se destacar também “Dark on Dark” de Niger; o espanhol “Niñato“; e a mostra de filmes da África do Sul.

FIDMarseille

“Baronesa” (último vencedor da mostra de Tiradentes) não levou o prêmio principal, mas saiu com três vitórias neste festival francês: prêmio da Marseille Prison Management, o prêmio da cidade de Marselha e o prêmio do público. O júri presidido pelo cineastra Sharunas Bartas decidiu escolher o alemão “Let the Summer Never Come Again“, de Alexandre Koberidze, que também esteve em Berlim. Parece ser um filme ensaio bem experimental, esta crítica em alemão é bem elogiosa.

Coube a menção honrosa para o francês “Braguino“, de Clément Cogitore, sobre duas família que vivem em disputa em um lugar lindo na Siberia. Já escolha da companhia Vidéo de Poche recaiu para “Playing Men” e de menção honrosa a decisão foi para “Tinselwood“, também exibido no último festival de Berlim.

Na competição francesa, o vencedor foi um empate entre “Southern Belle“, de Nicolas Peduzzi e “7 Pardeh / 7 Voiles“, de Sepideh Farsi; enquanto a escolha da Vidéo de Poche foi para “Le coeur du Conflit“, em mostra que ainda tinha o novo filme de Philippe Grandrieux, “Unrest“.

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