Premiação do 50o. Festival de Brasília

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Segue os vencedores do Troféu Candango do 50o. Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, que ocorreu de 14 a 22 de setembro na capital do país.

LONGAS

Melhor Filme: Arábia, dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans

Melhor Direção: Adirley Queirós por Era uma vez Brasília

Melhor Ator: Aristides de Sousa por Arábia

Melhor Atriz: Valdinéia Soriano por Café com canela

Melhor Ator Coadjuvante: Alexandre Sena por Nó do Diabo

Melhor Atriz Coadjuvante: Jai Baptista por Vazante

Melhor Roteiro: Melhor Roteiro: Ary Rosa por Café com canela

Melhor Fotografia: Joana Pimenta por Era uma vez Brasília

Melhor Direção de Arte: Valdy Lopes JN por Vazante.

Melhor Trilha Sonora: Francisco Cesar e Cristopher Mack por Arábia

Melhor Som: Guile MartinsFrancisco CraesmeyerDaniel Turini e Fernando Henna por Era uma vez Brasília

Melhor Montagem: Luiz Pretti e Rodrigo Lima por Arábia

Prêmio Especial do Júri: Melhor Ator Social para Emelyn Fischer, por Música para quando as Luzes se apagam

Júri Popular – longa-metragem:

Café com canela, dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio

Prêmio Petrobras de Cinema para o melhor longa-metragem pelo Júri Popular:

Café com canela, dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio

CURTAS

Melhor Filme: Tentei, dirigido por Laís Melo

Melhor Direção: Irmãos Carvalho por Chico

Melhor Ator: Marcus Curvelo por Mamata

Melhor Atriz: Patricia Saravy por Tentei

Melhor Roteiro: Ananda Radhika por Peripatético

Melhor Fotografia: Renata Corrêa por Tentei

Melhor Direção de Arte: Pedro Franz e Rafael Coutinho por Torre

Melhor Trilha Sonora: Marlon Trindade por Nada

Melhor Som: Gustavo Andrade por Chico

Melhor Montagem: Amanda Devulsky e Marcus Curvelo por Mamata

Prêmio​ ​especial: Peripatético, dirigido por Jéssica Queiroz

Júri Popular – Curta-metragem: Carneiro de ouro, dirigido por Dácia Ibiapina

Sugestões para o Festival do Rio 2017

Minhas sugestões de filmes no Festival do Rio, baseado em repercussão em festivais, críticas e temas de interesse:

IMPERDIVEIS
As Boas Maneiras, de Juliana Rojas & Marco Dutra
Bom Comportamento, de Josh & Ben Safdie
Ex Libris: Biblioteca Pública de Nova York, de Frederick Wiseman
Titicut Follies, de Frederick Wiseman
A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho
The Floria Project, de Sean Baker
Top of the Lake: China Girl, de Jane Campion & Ariel Kleiman
Verão 1993, de Carla Simón
Zama, de Lucrecia Martel

ALTAS RECOMENDAÇÕES
Mostra Clássicos & Cults
12 Dias, de Raymond Depardon
120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo
Açúcar, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira
Adeus Entusiasmo, de Vladmir Durán
A Aliança, de Rahmatou Keita
O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida
Antipornô, de Sion Sono
Atrás há Relâmpagos, de Julio Hernández
Autocrítica de um Cão Burguês, de Julian Radlmaier
Avisem Que Estamos Chegando: A História das Universidades Negras, de Stanley Nelson
Barbara, de Mathieu Amalric
A Câmara de Claire, de Hong Sang-Soo
Contos da Birmânia, de Petr Lom
Corpo e Alma, de Ikdikó Enyedi
Crown Heights, de Matt Ruskin
Dedo da Ferida, de Silvio Tendler
Detroit em Rebelião, de Kathryn Bigelow
O Diabo e o Padre Amorth, de William Friedkin
Dina, de Antonio Santini
Doentes de Amor, de Michael Showalter
As Entrevistas de Putin, de Oliver Stone
Eu Não Sou uma Feiticeira, de Rugano Nyoni
Fevereiros, de Marcio Debellian
Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa
Golden Exits, de Alex Ross Perry
Henfil, de Angela Zoé
How to Talk to Girls at Parties, de John Cameron Mitchell
Jeannette: A Infância de Joana D’Arc, de Bruno Dumont
Karingana – Licença Para Contar, de Monica Monteiro
Last Flag Flying, de Richard Linklater
Livres, de Patrick Granja
Logan Lucky – Roubo em Família, de Steven Soderbergh
Mamãe Coronel, de Dieudo Hamadi
Manifesto, de Julian Rosefeldt
Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadgnino
Milla, de Valérie Massadian
A Natureza do Tempo, de Karim Moussaoui
Pequena Grande Vida, de Alexander Payne
Piazza Vittorio, de Abel Ferrara
Política, Manual de Instruções, de Fernando León de Aranoa
Pop Aye, de Kirsten Tan
Praça Paris, de Lúcia Murat
Senhora Fang, de Wang Bing
Sexy Durga, de Sanal Kumar Dasidharan
Terra Selvagem, de Taylor Sheridan
Los Territorios, de Iván Granovsky
Unicórnio, de Eduardo Nunes
A Vendedora de Fósforos, de Alejo Moguillansky
The Villainess, de Jung Byung-Gil

OUTRAS RECOMENDAÇÕES
Mostra Clássicos do Queer Britânico
Os 8 Magníficos, de Domingos Oliveira
A Ciambra, de Jonas Carpignano
Anos Dourados, de André Téchiné
Ao Vivo na França, de Abel Ferrara
Até o Próximo Domingo, de Evaldo Mocarzel
Based on a True Story, de Roman Polanski
Bio, de Carlos Gerbase
Brigsby Bear, de Dave McCary
Uma Casa à Beira Mar, de Robert Guédiguian
Casa Roshell, de Camila José Donoso
O Céu de Tóquio à Noite é Sempre do Mais Denso Tom de Azul, de Yuya Ishii
Clara Estrela, de Susanna Lira
A Comédia Divina, de Toni Venturi
Crânios do Meu Povo, de Vincent Moloi
Uma Criatura Gentil, de Sergei Loznitsa
Dalida, de Lisa Azuelos
Depois Daquela Montanha, de Heny Abu-Assad
Earth: One Amazing Day, de Peter Webber
Estado de Exceção, de Jason O’Hara
Eu, Pecador, de Nelson Hoineff
Exercícios de Memória, de Paz Encina
A Festa, de Sally Potter
Frost, de Sharunas Bartas
God’s Own Country, de Francis Lee
Grace Jones: Bloodlight and Bami
Legaliza Já!, de Johnny Araújo & Gustavo Bonafé
A Liberdade do Diabo, de Everardo González
Limpam com Fogo, de César Vieira
Livrai-me, de Federica Di Giacomo
Long Strange Trip: A Viagem do Grateful Dead, de Amir Bar-Lev
Os Meyerowitz, de Noah Baumbach
O Muro, de Lula Buarque
Novitiate, de Maggie Betts
Ocidental, de Neil Beloufa
Piripkura, de Mariana Oliva
Que Língua Você Fala?, de Elisa Bracher
Rastros, de Agnieszka Holland
Santa & Andres, de Carlos Lechuga
Serguei, o Último Psicodélico, de Ching Lee & Zahy Tata Pur’gte
Slam: Voz de Levante, de Tatiana Lohmann & Roberta Estrela D’Alva
Thrist Street, de Nathan Silver
Últimos Homens em Aleppo, de Firas Fayyad
Yonlu, de Hique Montanari

Destaques de Cannes 2017

Por ser o festival de maior destaque, aquele que acaba recebendo a maior atenção da mídia, passarei sem maior aprofundamento nos comentários dos filmes da competição principal. No apanhado que faz o crítico Roger Koza, a seleção de filmes que se viu refletida na premiação presidida por Pedro Almodovar exibe uma coleção de perversidades e relatos de como a sociedade anglo e eurocêntrica contemporânea está degenerada e desumanizada. No artigo, Koza questiona a Palma de Ouro “The Square” do sueco Ruben Östlund e os novos filmes de Andrei Zvyagintsev (prêmio do jurado); Yorgos Lanthimos (melhor roteiro); Fatih Akin (melhor atriz para Diane Kruger); e Lynne Ramsay (melhor roteiro e ator para Joaquin Phoenix).

No entanto, entre os outros vencedores, elogia “120 battements par minute” de Robin Campillo, vencedor do 2o. lugar, o grande prêmio do júri (além do FIPRESCI), com filme de temática LGBT que muitos achavam que seria o vencedor; como também não desgosta do prêmio de melhor direção para Sofia Coppola, por seu “O estranho que nós amamos”.

Voltando ao terreno de “mundo cão” ainda concorriam as novas entregas Michel Haneke e Sergei Loznitsa. Como o dissenso é sempre interessante, existem opiniões que dão sim valor a estes filmes mais cruéis: Dennis Lim adorou a sátira de “The Square”; Carlota Moseguí adjetiva “Loveless” como joia; Pablo Villaça reconhece e admira a repugnância de “The Killing of a Sacred Deer” e elogia (de forma mais moderada) “In the Fade“. Já o thriller “You Were Never Really Here” empolgou Eli Hayes;  Jessica Kiang se convenceu com o mordaz “Happy End“; e a brutalidade de “A Gentle Creature” impressionou Jonathan Romney.

Outros destaques na mostra principal recaem para mim na seguinte ordem de preferência: “The Day After” de Hong Sangsoo (que também apresentou, produtivo que é, “Claire’s Cinema“, fora de competência ); “Good Time“, de Benny e Josh Safdie; “Okja” de Bong Joon-Ho; e “Wonderstruck“, de Todd Haynes.

Indo agora para as mostras de menor impacto midiático, na “Um Certo Olhar”, em júri presidido por Uma Thurman, a vitória foi para o Irã, pelo filme “Lerd (Un Homme Integre)”, de Mohammad Rasoulof, mais uma denúncia de um sistema corrupto para alguns um representante do “pornô da miséria”, para outros um excelente estudo de personagem.

Mas foi o alemão “Western”, de Valeska Grisebach, que conquistou as críticas mais empolgantes. “Una audaz exploración de la naturaleza humana” (Manu Yáñez). Outro filme muito elogiado, inclusive vencedor do prêmio FIPRESCI da crítica, foi “Closeness”, de Kantemir Balagov: “Resulta instructivo comparar el film de Bagalov con Loveless o A Gentle Creature. La precisión del cineasta debutante (Balagov) consiste en singularizar en un espacio concreto y un tiempo específico su relato. La alegoría está destituida de plano, de tal forma que los personajes son tan importantes como la sustancia del relato.” (Roger Koza).

Ao longo desta mostra, destaca-se o brasileiro “Gabriel e a Montanha“, de Felipe Barbosa (“Casa Grande”); o novo filme do ator-diretor francês Mathieu Amalric, “Barbara” ; a nova película do diretor de “Entre os muros da escola”, Laurent Cantet, “L´Atelier”; o pequeno drama argentino-chileno “La novia del desierto”; o filme argelino de episódios “Until The Birds Return“; a nova viagem de Kiyoshi Kurosawa, “Before We Vanish“; e o novo drama político de Santiago Mitre “La Cordillera“.

Nas demais mostras e fora de competição, foram exibidos ainda novos filmes de Claire Denis (“Un beau soleil Interieur“); Bruno Dumont (“Jeanette“); Agnes Varda, em codireção com o jovem JR (“Visages Villages“); John Cameron Mitchell (“How to Talk to Girls at Parties“); Takashi Miike (“Blade of the Immortal”); Raymond Depardon (“12 Days“); Claude Lanzmann (“Napalm“); Abbas Kiarostami (“24 Frames“); Sean Baker (“The Florida Project“), além das descobertas sulcoreanea “Ak-Nyeo”; venezuelana “La Familia”; italianas “A Ciambra” e “Sicilian Ghost Story”; portuguesa “A fábrica de nada”; inglesa “I Am Not a Witch”; e a exibição no cinema dos televisivos “Top of the Lake” e “Twin Peaks”.

Destaques nos festivais latinos BAFICI, Cartagena, Guadalajara, Fronteira, FICUNAM, Olhar de Cinema, Lima Independiente e Gramado

BAFICI

O maior festival argentino traz mais de 400 filmes que geraram repercussão em outros festivais, mas também tem mostras competitivas e é uma boa janela para vermos os futuros lançamentos do cinema argentino na mostra nacional. Na competência internacional, o vencedor foi o espanhol “Niñato“, de Adrián Orr, também exibido no Visions du Réel. Outros filmes premiados foram os já rodados “Viejo Calavera”, “Estiu 1993” e o nosso “Arábia” de Affonso Uchoa. Fora os filmes já conhecidos, reside interesse em outros filmes que também competiam como o doc familiar “95 And 6 To Go“; o uruguaio de humor ácido, “El Candidato“; e a entrega da Costa Rica, “Medea“.

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Na mostra argentina, o vencedor foi “La vendedora de fósforos”, de Alejo Moguillansky, que “logra a través de todos estos discursos proponer lecturas generacionales sobre el poder transformador, confrontacional o fallido del arte, todo en relación a la mercancia, en este caso el dinero, que como en algunos films de Bresson funciona como encadenante de la suerte de los personajes.” (Monica Delgado). O prêmio de direção foi para Toia Bonino por “Orione”, enquanto a menção honrosa foi para “Una ciudad de provincia”, de Rodrigo Moreno. Os dois foram elogiados pelo crítico Diego Lerer, que ainda destacou “Casa Coraggio”, “Los Territorios” e “Una Hermana”. Destaca-se também o prêmio de público para “Las Cinephilas“.

Mostrando que o Brasil está mesmo bem nos festivais internacionais, na mostra latinoamericana, a vitória foi para o retrato de um triângulo amoroso em “A cidade do futuro“, novo filme de Cláudio Marques e Marília Hughes. Já o prêmio de direção (e também o FIPRESCI dos críticos) foi para “Un Secreto en la Caja” de Javier Izquierdo, espécie de mockumentary sobre um escritor equatoriano.

A mostra Vanguardia e Gênero premiou filmes já comentados nesse blog, “Those Who Make Revolution Halfway Only Dig Their Own Graves” (grande prêmio); “Adiós entusiasmo” (melhor longa); e “Mimosas” (menção honrosa), que já veio elogiado desde Cannes 2016. Outros destaques dessa mostra eram o argentino “Toublanc“; o espanhol “Dhogs“; e o documentário de crime “Santoalla“. Esta mostra ainda premiou os curtas espanhóis “Nuestra amiga la luna”, de Velasco Broca” e “La disco resplandece”, de Chema Garcia Ibarra. Outros curtas elogiados pelos críticos da OtrosCines foram “Keep that Dream Burning” e “The Absence of Eddy Table”.

Mostrando que é um festival mesmo sem fim, outra mostra competitiva foi a de Direitos Humanos, que premiou filmes também já citados aqui: “Tonsler Park” (melhor filme), do experimental afroamericano Kevin Jerome Everson; e “El pacto de Adriana” (menção honrosa) – dois filmes muito elogiados por Diego Lerer. De novidade se destaca também o filme-resistência frente ao governo iraniano, “Drum” e o brasileiro sobre transsexualidade “Meu corpo é político“.

Ao longo da programação, destaca-se também ainda os três curtas vencedores na mostra argentina: “Querida Renzo”, “No aflojes, Miriam” e “Fiora”; o doc sobre a cantora mexicana lésbica “Chavala“; o doc argentino “La película de Manuel“; mais um representante da nova escola romena, “The Fixer“; os novos curtas de Jia Zhang-ke, Nanni Moretti, Nadav Lapid e Marco Bellocchio;  o cinema direto espanhol de “Vida Vaquera“; e o thriller sulcoreano “Asura“.

Catálogo completo do festival aqui.

Cartagena

O festival colombiano traz poucos inéditos, a maioria são filmes que já passaram em outras mostras. O vencedor desse ano foi o boliviano “Viejo Calavera”, a melhor direção e o melhor filme colombiano para “Adiós Entusiasmo”, o melhor documentário foi “Ejercicios de Memoria”, o prêmio FIPRESCI de crítica para “El Cristo Ciego” – em competição que ainda tinham os brasileiros “Arábia” e “Elon não acredita na morte”. “Aquarius” foi o vencedor da competição Gemas, com outros filmes de muito boa repercussão.

O curta vencedor foi “Cucli” de Xavier Marrades e “Cilaos” de Camilo Restrepo venceu uma menção honrosa.

Das poucas novidades, recai interesse para o documentário sobre uma trans de uma região religiosa “Señorita María, La Falda de la Montaña“, de Rubén Mendoza (vencedor da melhor direção colombiana).

Guadalajara

Na mostra nacional do festival mexicano, a vitória recaiu para “La Libertad del Diablo”, de Everardo González, “porque crea un retrato innovador, poético y a la vez aterrador sobre la violencia en México” – vencedor também entre os documentário e do prêmio de fotografia. Já a melhor direção ficou para Sofía Gómez Córdova, por “Los Años Azules“, “por lograr un retrato auténtico de la juventud contemporánea”.

Já na mostra iberoamericana, a vitória principal e os prêmios de atriz e roteiro recaíram para “Santa y Andrés” de Carlos Lechuga, “por mostrarnos una historia de amistad entre supuestos enemigos con poesía y humanidad en un universo usualmente conflictivo”.

Outros prêmios foram para: o brasileiro “As Duas Irenes” (melhor primeiro filme e fotografia); o dominicano “Carpinteros” (prêmio especial); e o peruano “La Ultima Tarde” (direção). Outro peruano, “Aya”, de Francesca Canepa Sarmiento, venceu o prêmio de curta-metragem. Já na mostra Maguey de filmes LGBTs, a vitória foi para o brasileiro “Corpo Elétrico”.

Fronteira

O festival goiano de filmes documentários e experimentais com uma curadoria caprichada deu para o inglês “Sleep Has Her House” de Scott Barley, o prêmio principal. Segundo o júri, “com meios extremamente pobres (um iPhone), o realizador soube elaborar, sem o recurso à palavra, um poema sonoro e visual siderante que coloca o espectador num estado de levitação, de feitiço salutar.”

O prêmio especial foi para o Equador. De acordo com o júri, “Território” de Alexandra Cuesta, tem “alguns fragmentos de paisagens bem observadas, repostas em cena nos seus mínimos detalhes, escrevem, sem discursos laboriosos, e com uma justa troca com os participantes, um documentário em frescor, tanto geográfico como social.”

Outros destaques residem para “Houses Without Doors“, registro sobre os imigrantes sírios na Armênia e os brasileiros “Baronesa” (último Aurora de Tiradentes) e “Subybaya”.

Entre os curtas a vitória foi para o colombiano “Sol Negro”, de Laura Huertas Milan; enquanto o prêmio especial foi para o argentino “Los (De)pendientes” de Sebastian Wiedman. Justificativa do júri aqui e catálogo da mostra aqui.

FICUNAM

Festival mexicano com excelente curadoria do crítico Roger Koza premiou este ano o experimental filme italiano “Os Bons Tempos Chegarão em Breve“, de Alessandro Comodin, que foi exibido no Festival do Rio de 2016. “Eldorado XXI” venceu a menção honrosa, “Rey” o prêmio de público e entre as novidades para mim, ainda foi exibido o austríaco “Brüder der Nacht“, cujo diretor Patric Chiha ficou com o prêmio de direção, e o dominicano “Tormentero” (prêmio da imprensa).

Na mostra mexicana, a vitória recaiu para “Ruinas tu reino” de Pablo Escoto. “Hay tiempo para el canto, la siesta, o observar el cielo inclemente mar adentro con rumbo al Golfo de México.” (Monica Delgado). Os filmes “Bosque de niebla” e “Casa Roshell” levaram menções especiais.

Olhar de Cinema

O festival curitibano concedeu seu prêmio principal para “El mar la mar”, já elogiado no Festival de Berlim. Entre as novidades, os premiados foram para o sírio “300 Milhas” (prêmio especial); os brasileiros “Navios de Terra“, de Simone Cortezão (menção honrosa de contribuição artística – não tão grande novidade, pois já tinha passado no Visions du Réel) e “Fernando“, de Igor Angelkorte, Julia Ariani e Paula Vilela (prêmio de público); o russo “Convicções” (Outros Olhares), de Tatyana Chistova; e o turco “Grande Grande Mundo“, de Koca Dunya (prêmio Abraccine da crítica).

Já circulando com repercussão em outros festivais, o chileno “Rey” levou menção honrosa e o doc indiano “Machines” ganhou o prêmio principal de contribuição artística; “Meu Corpo é Político”, o prêmio Olhares Brasil; o americano “Tonsler Park”, o Novos Olhares; o filipino “People power bombshell: the diary of Vietnam Rose”, uma menção honrosa).

Entre os curtas, os prêmios se dividiram para “La disco resplandece” (melhor filme); “Balança Brasil” (Olhares Brasil); e “A Rua Muda” (Mirada Paraense).

A crítica Monica Delgado fez parte do júri da mostra Outros Olhares e fez textos sobre os filmes da mostra aqui. Confira também catálogo da mostra.

Lima Independente

Como no Olhar de Cinema, “El mar la mar” também foi o grande vencedor deste festival peruano, que também premiou “Paris é Uma Festa” (menção especial); “El Operador”, de Diana Tupiño (melhor filme peruano – mostra essa analisada aqui); “Inefable”, de Yhan Chávez (menção especial peruana); e os brasileiros “Arábia” (melhor iberoamericano) e “Histórias que nosso cinema (não) contava” (menção iberoamericana). Entre os curtas, a vitória foi para o americano “Bad Mama, Who Cares” e a menção para o português “Um campo de aviação”.

Gramado

“Como Nossos Pais”, novo filme de Laís Bodanzky, foi o grande premiado da extensa lista de vencedores do festival, recebendo os prêmios de filme, direção, atriz, ator, atriz coadjuvante e montagem. O coming-of-age “As Duas Irenes”, exibido inicialmente em Berlim, teve ótimo destaque também ao ganhar melhor filme pela crítica, roteiro, direção de arte e ator coadjuvante. Outro destaque foi o falso-documentário “Bio”, de Carlos Gerbase, vencedor de melhor som, prêmio especial do júri e do júri popular. Somam aos principais vencedores, o argentino “Sinfonia Para Ana”, de Virna Molina e Ernesto Ardito (melhor filme estrangeiro); e os brasileiros “A Gis”, de Thiago Carvalhaes (melhor curta) e “Secundas”, de Cacá Nazario (melhor curta gaúcho).

Destaques do Festival de Locarno 2017

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Por ser meu festival de cinema favorito, aquele que traz os filmes mais arriscados e inventivos, dessa vez faço acompanhamento da mostra suíça antecipadamente.

O júri presidido por Oliver Assayas e acompanhado por Miguel Gomes (de “Tabu” – que este ano também esteve no júri de Roterdã), Christos Konstantakopoulus, Jean-Stéphane Bron e Birgit Minichmayr, vai escolher um desses filmes o Leopardo de Ouro:

– “Vinterbrødre / Winter Brothers“, de Hlynur Pálmason – PRÊMIO DE MELHOR ATOR PARA ELLIOTT CROSSET HOVE
Estreia em longas do diretor islandês, acompanha a vida dos trabalhadores durante o inverno europeu e a rivalidade entre duas famílias. “Se apoya y se eleva en los sensorial. Es un espectáculo audiovisual rubricado en el mimo extremo de cada plano” (Victor Esquirol) (03/08)

– “Freiheit“, de Jan Speckenbach
Drama alemão sobre uma mulher que resolve abandonar o marido e os filhos e ir rumo a Eslováquia. De acordo com crítica de Jorge Mourinha é um filme convencional. (03/08)

– “Ta peau si lisse“, de Denis Côté
Novo documentário do diretor canadense de filmes como “Bestiaire” e “Curling”. O tema é o culto ao corpo na preparação dos lutadores e fisioculturistas. “Quis fazer um filme terno, contemplativo, impressionista sobre a vida privada dos culturistas”, cita o diretor em crítica também de Jorge Mourinha. (04/08)

– “Lucky“, de John Carroll Lynch
Um dos muitos filmes americanos competindo este ano, é uma estreia na direção do ator de “Fome de Poder” e “Ilha do Medo”. Um road movie de um senhor ateu de 90 anos interpretado por Harry Dean Stanton, de “Paris Texas”. David Lynch também participa atuando. Segundo Luiz Eduardo Kogut é “meio problemático o modo que ele aposta nesse “realismo” que na verdade é só uma estrutura pronta de comédia indie” (04/08)

– “Gemini“, de Aaron Katz

Nome reconhecido do gênero Mumblecore, de filmes independentes americanos, como “Quiet City” e “Cold Weather”, Aaron Katz retrata agora disputas e crimes em Hollywood. Segundo Diego Battle, “un film grasa y fascinante” (05/08)

– “Wajib / Duty“, de Annemarie Jacir
Diretora palestina, Annemarie Jacir traz a relação conflituosa de um pai e filho, após a morte da mãe e o casamento da irmã. Reportagem traduzida do francês aqui. (05/08)

– “Madame Hyde”, de Serge Bozon – PRÊMIO DE MELHOR ATRIZ PARA ISABELLE HUPPERT
Do elogiado diretor de comédias francesas, é uma versão do ponto de vista feminino de “O médico e o monstro” no ambiente escolar. Segundo Jorge Mourinha, “não se esgota – como nenhum filme de Bozon alguma vez se esgotou – numa única visão; comece por ver-se pela presença imperial de uma Isabelle Huppert constantemente na corda bamba, ao mesmo tempo que se sente haver aqui algo mais que fica.” (06/08)

– “As Boas Maneiras“, de Juliana Rojas e Marco Dutra – PRÊMIO ESPECIAL DO JURADO
Retorno aguardadíssimo da grande dupla brasileira de filme de gênero, que tinha seguido por caminhos solos após a obra-prima “Trabalhar Cansa”. Na espera de mais um conto urbano tenso sobre as complicadas relações pessoais e de classe no país. Crítica extremamente positiva do ótimo crítico Neil Young. (06/08)

– “Charleston“, de Andreï Cretulescu
Se seguir a nova escola do cinema romeno, vem aí um filme de filmagem realista e tom satírico sobre a miserabilidade da vida social atual. Primeiro longa-metragem do diretor. (07/08)

– “Goliath“, de Dominik Locher
O representante suíço aparenta ser das apresentações mais convencionais da mostra em seu retrato de drama familiar. Tanto este quanto o anterior “Charleston” são bastante criticados nessas crítica do El Mundo. (07/08)

– “9 Doigts” de F.J. Ossang – VENCEDOR DO PRÊMIO DE DIREÇÃO
Com pegada de filme noir, o diretor de “Docteur Chance” e “Dharma Guns” traz essa co-produção França e Portugal com um encontro de dois atores saídos de filmes muito parecidos: Paul Hamy de “O Ornitólogo” e Damien Bonnard de “Na Vertical“. “Un elemento fuera de tiempo; un anacronismo marca de la casa”(El Mundo) (08/08)

– “Good Luck“, de Ben Russell
Prestigiado vídeo-artista traz agora um etnográfico ensaio sobre dois trabalhadores de mineração. Filmado em 16mm. “Sobresaliente ensayo sobre la dilatación temporal” (Carlota Moseguí) (08/08)

– “Mrs. Fang”, de Wang Bing (Francia, China, Alemania) – LEOPARDO DE OURO
O mestre do cinema direto chinês acompanha agora a vida e morte de uma portador de Alzheimer. Mais um registro austero da miserabilidade humana. “Why we are so unnerved by the naked evidence of this most natural and inevitable of human processes”(Jessica Kiang) (09/08)

– “Did You Wonder Who Fired the Gun?“, de Travis Wilkerson

Novo doc sobre a grave questão racial que atinge a própria família do prestigiado diretor experimental americano. Também exibido em Sundance este ano, coletou críticas críticas extremamente positivas. (09/08)

– “La telenovela errante“, de Raúl Ruiz e Valéria Sarmiento

Grande diretor chileno recentemente falecido tem seu filme dado como perdido de 1990 e agora completado pela própria mulher. Imperdível é pouco para definir a expectativa para assistir isso. Manu Yañéz descreve melhor como foi o desenvolvimento deste filme póstumo. Trailer aqui. (10/08)

– “Dragonfly Eyes”, de Xu Bing – VENCEDOR DO PRÊMIO FIPRESCI DA CRÍTICA INTERNACIONAL
Filme formado de coleção de imagens registradas por câmeras nas ruas na China.  Jorge Mourinha ficou muito entusiasmado com esse ensaio contemporâneo. (10/08)

– “Gli Asteroidi“, de Germano Maccioni
Único representante italiano da mostra, tratando de jovens pobres de uma cidade industrial que se convencem que virá o “fim do mundo” e realizam o último roubo. Fez uma passagem apática pelo festival, sem críticas em destaque. (11/08)

– “En el séptimo día“, de Jim McKay
Filme dentro do contexto de imigrantes trabalhadores do Brooklyn sobre um entregador de bicicleta que também é jogador de futebol. O diretor Jim McKay produz mais na televisão e realizou episódios de “The Good Wife” e “Lei e Ordem”. Crítica. (11/08)

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Além de “Boas Maneiras”, o Brasil foi representado pelo novo filme de Adirley Queirós, o mesmo do poderoso “Branco Sai, Preto Fica”, com o “Era Uma Vez Brasília“, que venceu a menção honrosa da mostra Signs of Life – o prêmio principal foi para o dominicano “Cocote”.

O filme de Adirley mais uma vez usa da ficção científica e de futuro distópico para refletir sobre a política brasileira. “É um filme em lume brando, panela de pressão permanentemente à beira de explodir, reflectindo o descontentamento, a decepção, o desespero que todo o processo do impeachment de Dilma Rousseff” (Jorge Mourinha).

Já na mostra “Cineasti del presente”, para realizadores estreantes, Felipe Hirsch volta após “Insolação” – filme que dividiu a crítica – com “Severina”, que pode ser visto em streaming gratuitamente até o dia 20/08 pelo Festival Scope, assim como outros filmes como o vencedor principal “3/4”, retrato familiar intimista do búlgaro Ilian Metev; a menção honrosa sobre a juventude portuguesa “Verão Danado“. O melhor filme de estréia, o georgiano “Scary Mother“, só pode ser visto na Suíça.

Ainda nesta mostra, o italiano “Milla” venceu o prêmio especial do jurado; o turco “Distant Constellation” ganhou a outra menção honrosa; e o sul-coreano “The First Lap” foi escolhido como melhor direção emergente.

Entre os curtas, os prêmios foram distribuídos para o português “António e Catarina”, o israelense “Shmama”, o francês “Jeunes Hommes à la Fenêtre”, e o belga “Kapitalistis”. De destacar também o espanhol “Aliens”, o alemão “Phantasiesätze” e as duas entregas do ótimo diretor Jean-Claude Rousseau: “Arrière-saison” e “Scaffold”

Outros longas de destaque: o curdo “Meteors“; o italiano “Surbiles“; o canadense experimental “PROTOTYPE“; os franceses “Le Fort des Fous” e “Chien“; o esloveno “The Family“; o alemão “Das kongo tribunal“; o palestino “Ouroboros“; e o romeno “The Dead Nation“.

Para completar, Todd Haynes, Jean-Marie Straub, Mathieu Kassovitz e Adrien Brody foram homenageados e Jacques Tourneur teve uma mostra especial.

 

 

 

Destaques nas mostras documentais: É Tudo Verdade, Punto de Vista, CPH:DOX, Cinema du Réel, Visions du Réel e FIDMarseille

A primeira metade do ano é marcada por diversos festivais de cinema documentário pelo mundo. Sem mais delongas, vamos ao que interessa, aos seus filmes:

É Tudo Verdade

No Brasil, tivemos em abril o É Tudo Verdade em sua 22ª edição, consagrando na mostra nacional o filme “Cidades Fantasmas“, de Tyrell Spencer, que já estreou recentemente nos cinemas brasileiros. O longa trata sobre quatro cidades abandonadas por seus habitantes. “Uma suíte meditativa e um tanto lúgubre sobre infortúnios, negligência governamental e feridas da América Latina” (em crítica de Carlos Alberto Mattos). A escolha foi feita pelo júri formado pelo o cineasta Joel Zito Araújo, a produtora Daniela Capelato e o diretor de fotografia Jacques Cheuiche.

Já o prêmio da crítica, o ABRACCINE, composto por Cesar Zamberlan, Camila Vieira e Cássio Starling Carlos foi para a história do branco criado por índios, “A Terceira Margem“, de Fabian Remy, “por permitir as incertezas de seu personagem, deixando suas descobertas esboçarem a narrativa, num processo em acordo com a questão central do filme”.

Também foram exibidos “Mexeu com uma, Mexeu com Todas“, cartaz feminista contra o a violência à mulher de Sandra Werneck; “Um Mundo Interiores“, sobre o autismo; “Quem é Primavera das Neves“, sobre a vida desta tradutora e poeta, co-dirigido por Jorge Furtado; “Tudo é Irrelevante“, sobre o advogado e sociólogo Hélio Jaguaribe; e “Maria – Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos“, sobre a artista plástica Maria Martins.

Já a mostra internacional, o júri composto pelo cineastas Alexandre O. Philippe e Anne Georget e a produtora chilena Jennifer Walton escolheu “Comunhão“, de Anna Zamecka, sobre uma menina polonesa de 14 anos tendo que lidar com sua família desfuncional, em observação distanciada com um quê de voyerismo de acordo com crítica de Carlos Alberto Mattos.

O Show da Guerra“, de Andreas Dalsgaard e Obaidah Zytoon ficou com a menção honrosa ao tratar dos primeiros registros da Primavera Árabe na Síria em 2011 que culminou em uma guerra civil sangrenta que perdura até hoje.

De maior destaque também competiam “Paris é uma Festa – Um Filme em 18 Ondas” do elogiado Sylvain George, sobre as recentes manifestações de rua dos jovens estrangeiros na França; o americano “Abacus: Pequeno o Bastante para Condenar“, de Steve James, diretor do premiado “Basquete Blues” (1994), no contexto da crise financeira de 2008; “Luz Obscura” sobre a Polícia Política Portuguesa da ditadura de Salazar; e “Uma Vida Alemã“, sobre uma funcionária do regime nazista que nega qualquer sentimento de culpa pela participação.

Também competiam “No Tempo que Chegará”, no contexto do cinquentenário de independência de Singapura; “A Prisão em 12 Paisagens“, sobre o encarceramento em massa dos EUA, temas já trabalhado no renomado “13ª Emenda”; “No Exílio“, sobre a fuga de uma família da Guerra Civil Espanhola para o México em 1939; “Perón, Meu Pai e Eu“, filme ensaio tendo como base uma entrevista com o ex-presidente argentino; “Relações Próximas“, com depoimentos sobre a crise política da Ucrânia iniciada em 2013; além de “The Workers Cup” que já falamos aqui quando passou em Sundance.

Paralelamente, a mostra latino-americana consagrou o chileno “Los Niños“, de Maite Alberdi, sobre grupo de amigos na faixa dos 50 anos com síndrome de Down; e deu uma menção honrosa para o colombiano “Atentamente“, de Camila Rodríguez Triana, sobre o romance de dois idosos em uma casa de repouso.

Completavam esta competição, “O Esquecimento (Im)possível” da vida de um jornalista e militante no Brasil na época da Ditadura por seu filho argentino; e “Ruínas Seu Reino“, sobre os pescadores do Golfo do México.

Já os curtas vencedores foram “Boca de Fogo” (nacional); “O Cuidador” (internacional); e “Se Você Contar” (Prêmio Canal Brasil) e as menção honrosas para “Festejo Muito Pessoal” (nacional e vencedor do ABRACCINE) e “Polonesa” (internacional).

Fora de competição, foram exibidos filmes que já passaram em outros festivais como “78/52“, “City of Ghosts”, “Ghost Hunting”, “No Intenso Agora”, além do elogiadíssimo e acredito que até então inédito no Brasil, “Dawson City: Tempo Congelado“, do americano Bill Morrison. Também foram exibidos “Eu, Meu Pai e Os Cariocas“, biografia do grupo de bossa nova Os Cariocas; “A Batalha de Florange”, sobre a resistência de trabalhadores na França frente o fechamento da usina em que trabalhavam; “Permanecer Vivo“, com Iggy Pop declamando Michel Houellebecq em seus momentos de distúrbios psiquiátricos; “Offshore – Elmer e o Sigilo Bancário Suíço” sobre a abertura de dados sobre clientes em contas em ilhas fiscais; e “Todos os Governos Mentem“, canadense sobre o jornalismo investigativo em tempos de pós-verdade.

Ainda, nas mostras retrospectivas, foram exibidos filmes do cineasta anti-ditadura Sergio Muniz e sobre 100 anos da Revolução Russa foram os temas.

Punto de Vista

O festival de Navarra, comunidade autônoma da Espanha, sempre traz experiências arriscadas e experimentais no formato documental. Este ano, o vencedor foi o representante do Reino Unido “The Host“, de Miranda Pennell, “por su capacidad de trazar un viaje cinematográfico del ámbito personal al político, indagando en una historia colonial cuyas consecuencias siguen vigentes hoy día”. O filme investiga as atividades de uma companhia de petróleo britânica no Irã. Em crítica extremamente positiva, Manu Yáñez diz que “La monocromía otorga al conjunto de las imágenes una fuerte cohesión plástica, algo que refuerza el parecido extremo que Pennell encuentra entre algunas fotografías antiguas y algunos dibujos fotorrealistas, lo que pone sobre la mesa la fragilidad de lo que conocemos como “Historia” y “realidad””.

O prêmio de melhor diretor foi para Eric Pauwels, pelo belga “La deuxieme nuit“, “por su capacidad de poner en relación la memoria, las palabras y las imágenes del cine como propuesta de libertad poética”, em uma espécie de carta de despedida para a mãe do diretor após seu falecimento. Já entre os curtas, o vencedor foi para “Foyer“, da Tunísia, de Ismaïl Bahri, “por que es elegante en su sencillez y economía de recursos, su minimalismo hace un guiño a cuestiones geopolíticas de mayor envergadura”.

A escolhas foram feitas pelo júri formado por Alain Fleischer, Vivi Tellas, Aleksandr Balagura, Toby Lee e Daniele Dottorini. Já o público premiou o espanhol “Converso“, de David Arratibel, sobre as reflexões sobre ser fiel ao catolicismo.

Ao redor da programação é de se destacar os longas: “We Make Couples“, colagem de imagens e vozes em off feministas; “The Challenge“, sobre as contradições da riqueza no emergente Qatar; e “Treblinka“, sobre o terror dos trens que carregavam judeus no regime nazista. Dentre os curtas: “Green Screen Gringo“, sobre visão de um holandês em meio à crise política brasileira e o impeachment de Dilma; o português “Cidade Pequena” que acompanha os pensamentos existenciais de uma criança; e “From Vincent´s House in the Borinage“, tomando como base uma carta de Van Gogh para o irmão.

Ainda na mostra “Cazador Cazado” foram exibidos docs sobre a obra dos mestres Chris Marker, Raoul Ruiz, Manoel de Oliveira, Abbas Kiarostami e Jean-Luc Godard.

CPH:DOX

Em júri que continha Joshua Oppenheimer (de “O Ato de Matar”), o tradicional festival dinamarquês premiou na mostra principal DOX:AWARD, o “The Last Men in Aleppo“, de Feras Fayyad, sobre a guerra na Síria, que já comentamos aqui quando estreou em Sundance. Enquanto as menções honrosas foram para o americano “Gray House” de Austin Lynch e Matthew Booth “for its astonishing use of cinematic language to create a profound sense of human isolation”; e para o dinamarquês “The John Dalli Mystery“, de Mads Brügger e Mikael Bertelsen “for its combination of gripping investigation with audacious, absurd, and despairing film noir”.

Dentre os outros filmes que competiam, reside interesse no dispositivo inovador no trato com o tema dos refugiados em “Stranger in Paradise“; o outro registro da Síria no olhar de um menino em “Obscure“; o gracejo em cima dos comerciais de energéticos no norueguês “DRIP“; as reflexões biopolíticas do australiano “The Third Option“; além de “City of Ghosts” que também competiu em Sundance e agora venceu o prêmio do público.

Eduardo Williams teve seu elogiado filme “O Auge do Humano” exibido fora de competição, enquanto ainda participou do júri do NEW:VISION AWARD, que valoriza obras mais ligadas à video arte. O vencedor dessa edição foi “Life Imitation” do chinês Zhou Chen, ” profundamente poético, hermoso incluso en su oscuridad” diz crítico Gonzalo Hernandez Espinosa que no artigo também detona o “Last Men in Aleppo”. A menção honrosa foi para “The Lost Dreams of Naoki Hayakawa“, sobre um diretor de arte japonês que trabalha 16 horas por dia e mistura seus sonhos com seu trabalho.

Na mostra de filmes mais jornalísticos, o F:ACT AWARD foi para o holandês “Radio Kobanï“, de Reber Dosky, sobre uma repórter de guerra na Síria; enquanto o americano “Trophy”de Shaul Schwarz e Christina Clusiau, sobre a cultura de caça aos animais ficou com a menção honrosa.

Já o NORDIC:DOX Award, mostra exclusiva de filmes nórdicos, o vencedor foi “Land of the Free” de Camilla Magid, sobre uma periferia de Los Angeles, que segundo o júri “achieves an incredible intimacy with its protagonists and stays true to its cinematic choices.” A menção honrosa foi para “69 Minutes of 86 Days” de Egil Håskjold Larsen, o registro de uma família imigrante.

Ao redor de todo o Festival reside interesse para os seguintes filmes: “Ambulance” sobre o conflito na Palestina; o olhar branco sobre a escravidão nos EUA, em “Purge This Land“; o filme sobre os cinemas itinerantes da Índia, “The Cinema Travellers“; “Brexitannia“, primeiro filme sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Muito interessante também a curadoria que o músico Anohni fez para o festival.

Cinema du Réel

Filme que também passou em Berlim, “Mama Colonel“, sobre a violência sexual com as mulheres no Congo, foi o grande vencedor do festival francês. O segundo prêmio, dado pela associação de documentaristas Scam, foi dado para “No Intenso Agora”, do nosso João Moreira Salles, que também venceu o prêmio da Biblioteca e de melhor trilha sonora para Rodrigo Leão.

Competiam também outros filmes que já passaram por outros festivais como “Martírio”, “Ghost Hunting”, “Luz Obscura”, “Ejercicios de Memoria”, “Paris é uma Festa” e “We The Workers”. De novidade, o filme ensaio americano “A Strange New Beauty“, o cinema direto chinês de “A Yangtze Landscape“; e o conflito Israel x Palestina em “Postcards from the Verge“.

Na mostra francesa, a vitória recaiu para “Last Days in Shibati“, de Hendrick Dusollier, um retrato de um subúrbio na China, que também venceu o prêmio do júri jovem. Já as menções especiais recairam por parte do júri oficial para “Every Wall is a Door” e suas reflexões da Búlgaria pós-comunista e o júri jovem lembrou de “I Remember Nothing“, sobre um jovem bipolar no contexto da revolução da Tunisia em 2011. Recai curiosidade também para o novo filme do ótimo Nicolas Klotz, “Hamlet in Palestine“.

Na mostra paralela de diretores estreantes, o prêmio máximo Joris Ivens foi para “On the Edge of Life“, de Yaser Kassab, outro retrato sobre a guerra na Síria, com o uso de Skype para o contato.

O festival ainda fez uma homenagem a Andrea Tonacci, exibindo todos seus filmes.

Visions du Réel

Outro registro da guerra na Síria saiu vencedor do festival suíço. “Taste of Cement” trata de trabalhadores sírios em Beirute, acompanhando a guerra de longe e sem direitos de ir e vir no Líbano. “Talal Khoury’s camera rests on silent, motionless, introverted, exhausted and hopeless faces of its subjects.” (diz crítica de Dieter Wieczorek). Já o prêmio RÉGIONYON de filme mais inventivo, foi para o italiano “Upwelling“, de Silvia Jop e Pietro Pasquetti, um filme ensaio com reflexões políticas (crítica positiva aqui).

De destaque ainda competiam “I Pay For Your Story“, que leva o título ao pé da letra ao receber depoimentos de moradores de um subúrbio em Nova York; “A Campaign of Their Own” sobre a campanha de Bernie Sanders para presidência dos EUA; o olhar sobre a Singapura prestes a comemorar sua independência em “In Time To Come“; o brasileiro “Navios de Terra” com reflexões sobre a imigração em tempos globalizados; as consequências da guerra entre Armenia e Azerbaijão em “Les éternels“; e mais um registro da Síria, “No Place for Tears“.

O prêmio de melhor filmes suíço foi para “Retour au Palais” de Yamina Zoutat, “the former TF1 journalist takes possession of the Palace of Justice, making it her own, subjectively re-transcribing the story and retranscribing it (em crítica de Muriel Del Don). “Kawasaki Keirin” levou o prêmio inovador e “Rue Mayskaya” ficou com menção honrosa.

Entre os médias metragens, a vitória recaiu para Burkina Faso em “Vivre riche” de Joël Akafou; o média inovador foi o italiano “Yvonnes” de Tommaso Perfetti, enquanto a menção honrosa foi para o retrato do Camboja “Miss Rain” de Charlie Petersmann.

Ao longo da programação é de se destacar também “Dark on Dark” de Niger; o espanhol “Niñato“; e a mostra de filmes da África do Sul.

FIDMarseille

“Baronesa” (último vencedor da mostra de Tiradentes) não levou o prêmio principal, mas saiu com três vitórias neste festival francês: prêmio da Marseille Prison Management, o prêmio da cidade de Marselha e o prêmio do público. O júri presidido pelo cineastra Sharunas Bartas decidiu escolher o alemão “Let the Summer Never Come Again“, de Alexandre Koberidze, que também esteve em Berlim. Parece ser um filme ensaio bem experimental, esta crítica em alemão é bem elogiosa.

Coube a menção honrosa para o francês “Braguino“, de Clément Cogitore, sobre duas família que vivem em disputa em um lugar lindo na Siberia. Já escolha da companhia Vidéo de Poche recaiu para “Playing Men” e de menção honrosa a decisão foi para “Tinselwood“, também exibido no último festival de Berlim.

Na competição francesa, o vencedor foi um empate entre “Southern Belle“, de Nicolas Peduzzi e “7 Pardeh / 7 Voiles“, de Sepideh Farsi; enquanto a escolha da Vidéo de Poche foi para “Le coeur du Conflit“, em mostra que ainda tinha o novo filme de Philippe Grandrieux, “Unrest“.

Destaque no FESPACO 2017, o festival de cinema da África

Infelizmente pouco conhecido, o que revela a manutenção do racismo na invisibilidade da mídia e da atenção pública para o continente africano, o festival bianual FESPACO em Burkina Faso ocorreu de Fevereiro a Março. O prêmio principal, Cavalo de Ouro, foi para o drama senegalês “Felicité”, de Alain Gomis, que também saiu com o Urso de Prata no último festival de Berlim.

Segundo o crítico Michael Sicinski, o filme “depict those systems of oppression as immutable faîts accompli. This is a complex work of portraiture, tinged with both strength and deep despair.”

Já o Cavalo de Prata, foi para Benin, “Un Orage Africain” de Sylvestre Amoussou, com pegada mais característica do cinema anticolonial africano. O Cavalo de Bronze foi para “A Mile in My Shoes“, drama policial do Marrocos dirigido por Said Khallaf – segue uma crítica moderadamente positiva sobre o filme.

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O melhor ator foi para Ibrahim Koma, no thriller de Mali “Wulu“, dirigido por Daouda Coulibaly, filme que foi muito elogiado pela Bérénice Reynaud do Senses of Cinema. A atriz escolhida foi Noufissa Benchehida por “A la recherche du pouvoir perdu” do marroquino Mohammed Ahed Bensouda.

Outros filmes que competiam que despertam interesse: o drama da Tanzania, “Aisha“, de Chande Omar; o filme de crime de Guadalupe “Le Gang des Antillais“, de Jean-Claude Barny; o representante da Algéria, “Le Puits“, de Lotfi Bouchouchi; o curioso amadorismo de “Praising The Lord Plus One” de Kwaw Paintsil Ansah, de Gana; o filme de música “The Lucky Specials“, de Rea Rangaka, da África do Sul; e a beleza de Niger em “Zin’naariya!”, de Rahmatou Keïta, das poucas representantes femininas da seleção.

 

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Entre os documentários a pauta anticolonial é ainda mais forte e muitos filmes denunciam o racismo, as consequências da escravidão e as disputas e guerras na região. O filme vencedor conta a vida do grande escritor Cheikh Anta Diop que reinvindicava a importância das civilizações africanas ancestrais, “Kemtiyu -Cheikh Anta“, de Ousmane William Mbaye de Senegal; também do Senegal “Bois d’ébène” de Touré Moussa também estava na mostra tratando sobre a escravidão, assim como a entrega da Guadalupe, “Citoyens bois d’ébène“, de Franck Salin; a guerra civil na Costa do Marfim é tema de “Le réveil de l’éléphant” de Souleymane Drabo; o envolvimento do Marrocos na II Guerra Mundial está em “Les Hirondelles de l’amour“, de Jawad Rhalib; o movimento Soweto Uprising dos estudantes da África do Sul é visto em “Uprize!” de Sifiso Khanyile; e “Yolande ou Les blessures du silence” do congolês Léandre-Alain Baker, trata da sobrevivente do genocídio de Ruanda em 1994.

Outros temas explorados foram as consequências do conflito nuclear em Moruroa, na Polinésia Francesa, em “Bons baisers de Moruroa” do argelino Larbi Benchiha; as experiências em cinema direto de Teboho Edkins na África do Sul, em “Coming of Age” e de Ousmane Samassékou em “Les Héritiers de la colline“, sobre processo de eleição em um sindicato no Mali; e a questão da mulher no Niger em “L’Arbre Sans Fruit“, de Aicha Macky. Foram exibidos também filmes sobre “pai do cinema africano”, o grande cineasta senegalês Ousmane Sembène, “Djambar, Sembene l’insoumis” de Eric Boudoulé Sosso e, fora de competição, “Sembène!” de Samba Gadjigo.

Fora de competição, é de se destacar: “Haiti, mon amour” e as consequências do terremoto que devastou o país, de Guetty Felin,; o thriller argelino “Demain dès l’aube“, de Lofti Achour; o drama histórico marroquino “Fidda“, de Driss Chouika; “L’ombre de la Folie“, de Boubacar Gokou; “Lamb“, de Yared Zeleke, o primeiro filme etíope a passar em Cannes no “Un Certain Regrad” de 2015; o documentário “Me a Belgian, My Mother a Ghanaian“, de Adams Mensah, que mostra o trânsito de identidades por conta das migrações; o drama familiar “Medan vi lever“, de Adam Kanyama, da Burkina Faso, representado também pelo doc de expressiva fotografia “Ouaga Girls“; a comédia romântica sul-africana “Mrs Right Guy“; e a ação com toques de comédia da Costa do Marfim, “Sans Regret“, de Jacques Trabi.

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